Nasceu anjo...

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                 Nasceu anjo. No momento em que chegou a esse mundo, as forças celestes decidiram que aquela criança estava destinada a exercer uma função: ser o anjo da guarda de inúmeras pessoas. No entanto, parecia bastante inusitado uma criatura já nascer anjo no mundo dos humanos, não? Então decidiu-se que aquele seria um humano que passaria a sua vida a exercer a função de um anjo, até que um dia as forças dos céus vissem que seria justo levá-lo para um outro plano, para que fosse um verdadeiro anjo, no seu verdadeiro sentido. Passou a vida protegendo a todos que pareciam necessitar e que estavam à sua volta. Passou por ingênuo, bobo, mas ele sabia o que estava fazendo: caridade. Ele sabia que tinha uma missão nessa vida, e essa missão era a de fazer caridade, sem ver a quem ou porque, mas simplesmente porque era aquilo que achava ser certo. Foi o anjo da guarda de muitos, mas em um dado momento, com o nascimento da primogênita de suas netas, percebeu que queria ser um anjo da guarda de uma só pessoa, apesar de proteger também as que estavam à sua volta. Ele cresceu e se doou para essa menininha, devotando cada minuto dos seus dias, cada respiração, a fazer daquela menina uma pessoa feliz. Quando viu que essa menina sabia andar com suas próprias pernas, que já podia segurar as questões da vida, conversou com os céus e percebeu:
            - Agora posso ser um anjo no sentido pleno desta palavra. Não é mais necessário habitar esse plano para proteger essa garotinha. Irei para um outro plano, farei de mim um verdadeiro anjo, mais forte, e ficarei olhando por ela desse lugar, me comunicando com ela através de seu coração.
              E assim, ele se tornou um anjo verdadeiro, que anda sempre com essa menininha e, ao cair da noite, senta-se na cadeira do quarto dela, para protegê-la dos maus sonhos e ajudá-la a levantar bem no dia seguinte. Essa cadeira está do lado da porta do meu quarto.


O Corvo.

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Ajoelhou.
Já não tinha mais forças.
Suas dúvidas pairavam sobre sua cabeça tal qual corvos que avistam uma presa indefesa.

Sua armadura, agora arranhada e amassada resistira bravamente até ali. Não tinha certeza de quanto tempo ainda aguentaria as fortes investidas dos seus próprios questionamentos.

Se apoiou na espada em forma de cruz e levantou ainda com a cabeça baixa, encarando a arma cruciforme. Ironicamente nunca se declarara um cavaleiro dos Céus, representante de Deus, tampouco do Inferno e do mal que lá habitava. Era um cavaleiro da terra, sua aliada era a razão.

As dúvidas continuavam a investir, imagens de tudo que vira ao longo de sua longa breve vida apareciam em flashes para, de algum modo, desestabilizar suas certezas. E ele se perguntava: era humano aquilo que via?

Via pessoas cinzas, dançarinos e atores pálidos, palhaços tristes, poetas que, desesperadamente, procuravam uma folha de papel para imprimir suas ideias. Via crianças sem vida e vidas sem crianças.

Não podia encarar aquilo como algo comum. Não mais. Durante sua existência aprendera a sentir o vento, aprendera a apreciar o frio vertiginoso na barriga e a suportar o grito cortante do silêncio.
Dominou a angústia da espera, iluminou sua existência de sabedoria.
Nao mais criava expectativas, nao mais criava medos.

Enfrentava alegrias e temores como visitantes há muito tempo aguardados.
Estavam batendo. Era hora de abrir a porta.

Esquina.

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Os tempos estavam mudando.
Podiam sentir naquele dia o fim de um ciclo. Suas vidas chegavam à uma esquina e eles precisavam, mais do que nunca tomar fôlego para fazer a curva.

Olhavam para os lados, uns para os outros. Todos tinham certo medo.
Se conheceram ao longo daquela rua. Riram, brincaram, choraram e viveram coisas simples e complexas e belas.
Alguns olhavam para trás, para os que não puderam, por não ser ainda o momento, acompanhar o ritmo dos seus companheiros.

Seguiam em passos firmes. Alguns se davam as mãos. Prometiam não se soltar nunca mais.
Era lindo como aquelas almas jovens podiam guardar nos seus inexperientes corações tanto amor uns pelos outros. Era bonito ver como em cada um daqueles futuros adultos o sorriso e carinho de uma criança permanecia vivo e presente.

A esquina se aproximava cada vez mais, os que estavam de mãos dadas seguraram-se com mais força. Os passos firmes. O futuro iminente. O frio na barriga inexplicavelmente forte. Não tinham mais certeza de quem encontrariam. Não tinham certeza se veriam uns aos outros novamente. Não tinham certeza de mais nada. Apenas de que o futuro viria.

Os tempos estavam mudando.
21:48

Existência

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As estrelas corriam pelo céu.
Dentro de um taxi, os quatro seguiam relembrando as recentes memórias adquiridas ao longo da noite, ainda teriam todo um futuro para fazer isso mas isso não era problema.

Esgotado, M. os admirava, cada um deles de uma forma diferente, mas todos com uma mesma intensidade. Os admirava por sua loucura. Todos ali eram insanamente felizes e eram capazes de rir na cara da tristeza sem sombra de medo. Eram tolos palhaços se pendurando pelos trapézios da vida sem sequer se dar conta do perigo. Não podiam hesitar, não precisavam nem sabiam.
M. apenas observava, queria aprender aquilo com eles, aquela mágica e leve forma de encarar a vida e por isso ficava perto deles se encantando cada vez mais.

Ele sorria a toa. Todos eles, álias, carregavam um sorriso embriagado no canto da boca. Todos eles, sem exceções, carregavam a crença em um céu azul no dia seguinte. Eram jovens ainda. Jovens, tolos, bêbados e vivos.

De seu lugar no carro, M. ouvia um de seus amigos falar. Repetia várias vezes as histórias que tinham vivido. Mostrava paixão por aquilo tudo.
Não eram ainda, no entanto, capazes a de perceber toda a magia e importância daquilo tudo. Em sua juventude ainda não podiam perceber a força que aquelas experiências dariam ao seu caráter, e como a companhia um dos outros era, ao mesmo tempo, profunda e efêmera.
De alguma forma, as vidas daqueles quatro indivíduos estavam interligadas por algo mais que uma simples convenção.

Foram vencidos pelo cansaço. Aos poucos, um a um ia fechando os olhos e adormecendo. Eles se sentiam completos, sem nenhum vazio ou tarefa por fazer. Eram cavaleiros que voltavam às suas damas após uma batalha vitoriosa.

Deliciavam-se com aquela sensação. A sensação que lhes era dava pela amizade, pelo álcool, pela vida.
Estavam construindo um sentido pra sua vida. Uma alegria maior.
Eles existiam. Eles eram uma existência.


Um grande abraço,
Matheus de Carvalho
19:56

"Think a Little. Change a Lot."

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O professor britânico Richard Wiseman lançou recentemente um livro que tem povoado as postagens de vários blogs; "59 Seconds: Think a Little. Change a Lot." (59 Segundos. Pense um Pouco. Mude Muito). Neste livro, o professor busca maneiras de mudar a vida das pessoas, através de conselhos cientificamente comprovados, que tornam os episódios da vida mais funcionais e eficazes. São pequenas "sac
adas" que podem trazer mudanças positivas generosas. Mostrarei e comentarei, abaixo, as 10 maneiras de mudar a sua vida em 59 segundos:

1. Na próxima vez que você for a uma reunião importante, obtenha uma fácil e rápida vantagem psicológica sentando-se no meio do grupo. (Acreditem, funciona! Quando você está em posição mais periférica, sente-se excluído do grupo, dando uma certa insegurança. Ao se localizar no meio, há uma sensação de inclusão que vem simultanemente a uma sensação de importância, por estar no meio, numa posição central, que dá um pouco de destaque e segurança.)

2. Durante um encontro, comece indiferente e depois torne-se mais positivo; foque em coisas que ambos desgostem e imite a linguagem corporal de seu par.(Imitar a linguagem corporal no início parece funcionar, pois garante que ajamos mais ou menos da mesma maneira que a outra pessoa, evitando possíveis desentendimentos. Não é preciso mostrar tudo sobre você já de cara. Às vezes, isso assusta. De resto, já não sei exatamente o que dizer, porque nunca pensei muito antes de agir em um encontro. Tentei levar as coisas com mais naturalidade.)

3. Para proporcionar um aumento significativo em sua felicidade, force seu rosto a sorrir e segure essa expressão por 20 segundos. (Funciona! Tudo bem que pode ser apenas a curto prazo, mas forçar um sorriso, um sorriso mesmo, "sorrisão", funciona de verdade!)

4. A melhor maneira de conseguir que alguém goste de você não é fazendo um favor, mas fazendo com que essa pessoa faça um pequeno favor para você. (Você pode fazer favor a qualquer pessoa do Mundo, mas quando essa pessoa retribui com algum favor, é porque tem consideração e gosta de você. Faz todo sentido!)

5. Para diminuir com a bebida e a comida, use copos estreitos, coloque um espelho em sua cozinha e mantenha um diário alimentar. (Para mim, um espelho na cozinha não parece criar um ambiente tranquilo e agradável para ser feita uma refeição. Gera um certo desconforto. Mas o diário alimentar funciona: o problema é a preguiça de mantê-lo diariamente...)

6. Compre experiências e não bens. Vá a um show, filme, lugar diferente ou um restaurante estranho: qualquer coisa que forneça uma oportunidade de fazer algo com outras pessoas ou de contar aos outros depois. (Faz sentido! Uma viagem a um país estrangeiro dura muito mais tempo na sua memória do que um relógio Rolex...)

7. Ajude a atingir seus objetivos contando-os a amigos, familiares e colegas.(Dividir as coisas com os outros pode ser, por vezes, muito dificil. No entanto, conversar sobre seus planos com as outras pessoas dá oportunidade para que pessoas externa exponham sua opinião de forma que você possa fazer as melhores escolhas possíveis.)

8. Para ajudar a manter um relacionamento vivo, lembre-se de balancear cada comentário negativo com cinco positivos. (A vida não é feita somente de reclamações. Reconhecer o que há de bom no outro é uma das coisas mais importantes para um relacionamento. Há um reconhecimento dos defeitos, é claro. Mas ver a outra pessoa como um conjunto de problemas não é algo saudável. Equilíbrio, sempre!)

9. Quando for procurar um emprego, aumente sua credibilidade mencionando qualquer fraqueza óbvia no começo da entrevista. (Afinal, prepotência não é uma característica pessoal muito apreciada. Não precisa colocar na mesa todos os seus defeitos. No entanto, admitir que tem fraquezas é algo que aumenta sua credibilidade, pois você foi sincero.)

10. Vá atrás de mudanças “intencionais” começando um novo hobby, filiando-se a uma organização, aprendendo uma habilidade, iniciando um projeto ou conhecendo novas pessoas. (Sempre pensa: para que vou fazer isso se sei que nunca levarei isso à frente? Amigo, não importa! Viva cada momento! Se neste momento você quer escrever, crie um blog! Se quer cozinhar, vá ao mercado e mãos à obra! Que pintar? Vá a uma escola de artes. Afinal, você não precisa ser um Machado de Assis, um Claude Troisgros, um Picasso, para se divertir!)


Leia esta postagem também em "Around the World in 80 Posts", o novo blog de Mahatma Naiads com a colaboração de Sarah Haushofer.
15:50

Conversa de alma.

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Trabalhara a horas. Nando Reis cantava em seus fones de ouvido quando ele resolveu parar pra respirar.

Olhou pela janela e viu a noite que começava a surgir ao tempo que o sol descia seu rotineiro e melancólico caminho.

Então meio que sem aviso, um sentimento de aperto o atingiu em cheio. Fazendo com que seu estômago se contraísse e suas mãos fossem levadas até o rosto.
As lembranças que vinham em sua cabeça o faziam ter certeza de que era saudade.
Uma saudade enorme e rica e boa e energizante do seu amigo que recentemente viajara pra muito longe.

Era uma saudade de amigo, digo, de amigo de verdade.
Lembrava da última conversa que tivera com ele. Fora uma conversa de alma. Deu um sorriso leve ao pensar nesse termo.

"Conversa de alma...", pensou. Ele acreditava que as pessoas deviam ter mais conversas de alma.
Por medo, ou por insegurança, ou ainda talvez por egoísmo, as pessoas se acostumaram a guardar suas almas pra si, sem deixá-las conversar com as outras. Tinham, então, só conversas de boca.

Era tão bom quando ele tinha aquele amigo lá, que tinha uma alma tão linda com a qual era possível passar horas conversando sem nunca parar. E como era confortante pra própria alma ter aquela pessoa ali.

Que saudade que sentia daquele conforto. Que saudade que sentia daquele amigo. Que saudade que sentia. E só sentia, e sentia, e sentia.

"As pessoas deviam ter mais conversas de alma.", pensou novamente.

Lugar comum

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O pôr do sol nunca parecera tão triste para ele até então.
Estava sentado na cadeira da varanda do seu apartamento de 7º andar recém-comprado. Seus amigos estavam se divertindo lá dentro, mas ele precisava desse momento, pra ficar sozinho e simplesmente poder desejar que alguem mais estivesse com ele.

Ela veio então, e perguntou se estava tudo bem. Ele olhou com um sorriso forçado e disse que sim.
Ela não acreditou. Eram anos de amizade pra ser dispensada desse jeito. Ela sabia que não estava tudo bem e que ele precisava dela, mesmo que ele infantilmente negasse.
Sentou-se então em uma cadeira ao lado e lhe perguntou o que houve.
Silêncio.
Ele queria dizer, mas não sabia falar. Podia sentir o equilíbrio instável do seu espírito, e tinha medo de que, uma palavra o abalasse mais do que ele poderia aguentar. Ele não queria quebrar na frente dela, logo a escolha das palavras era crucial.
Silêncio.
"Eu... eu tenho medo." disse olhando pro chão.
Era a única forma como ele sabia descrever aquele vácuo gélido que ia desde seus pulmões, atravessando seu diafragma até seu estômago, fazendo com que ele, por vezes, prendesse a respiração e fechasse os olhos.
Ela sabia o que lhe estava afligindo.
Abraçou-o sentindo que aquilo não seria suficiente. Ele foi abraçado como se nada melhor pudesse lhe ter acontecido.
Tinha por ela um carinho especial, demorara muito tempo até perceber que sua relação com ela era uma amizade pura, e não poderia ser diferente, não dava pra ser. Um romance entre eles era impossível, não por falta de afeto, mas por falta de motivo.
A primeira lágrima escorreu.
Silêncio.
Silêncio.
Então, tudo pareceu ficar bem.




Um grande abraço,
Matheus de Carvalho